Redação Portal Economia & Negócios
Governo inicia consultas diplomáticas e avalia contramedidas, enquanto setores produtivos enfrentam perda de competitividade e redução das exportações para o mercado norte-americano
O governo brasileiro iniciou os procedimentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica em resposta às novas tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos nacionais. A decisão aumenta a pressão sobre Washington, mas ainda não representa a aplicação imediata de tarifas contra mercadorias norte-americanas.

Nesta primeira etapa, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) avaliará os impactos das medidas adotadas pelos Estados Unidos e as possíveis respostas brasileiras. O Itamaraty também deverá manter consultas diplomáticas com as autoridades norte-americanas na tentativa de construir uma solução negociada.
A estratégia do governo é utilizar a legislação como instrumento de defesa comercial e de negociação, evitando, se possível, uma escalada que possa comprometer exportações, investimentos, empregos e o custo de vida no Brasil.
O que permite a Lei da Reciprocidade
Sancionada em 2025, a Lei nº 15.122 permite que o Brasil adote contramedidas diante de ações unilaterais de outros países que prejudiquem a competitividade nacional ou interfiram em decisões soberanas brasileiras.
Entre as possibilidades estão a imposição de tarifas sobre bens e serviços, restrições às importações, suspensão de concessões comerciais e medidas relacionadas a investimentos e direitos de propriedade intelectual.
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A legislação determina, contudo, que as respostas sejam proporcionais ao prejuízo provocado e planejadas para minimizar os efeitos negativos sobre a atividade econômica brasileira.
Antes da adoção de medidas definitivas, o processo poderá envolver análises técnicas, consultas ao setor privado, negociação diplomática e consulta pública.
Tarifas podem chegar a 37,5%
As novas medidas dos Estados Unidos estabeleceram uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros. Outra sobretaxa, de 12,5%, foi aplicada no âmbito de uma investigação norte-americana relacionada ao combate ao trabalho forçado.
Quando as duas medidas incidem sobre a mesma mercadoria, a tarifa adicional pode alcançar 37,5%.
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, aproximadamente 23,1% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos estão submetidas às novas sobretaxas relacionadas às investigações conduzidas pela legislação comercial norte-americana.
Entre os segmentos atingidos estão açúcar, pescados, minérios, pedras ornamentais, madeira, óleos essenciais, produtos de perfumaria e diferentes itens industriais.
Exportações brasileiras apresentam retração
Os efeitos da instabilidade comercial já aparecem nos números. As exportações brasileiras para os Estados Unidos atingiram o recorde de US$ 40,4 bilhões em 2024, mas recuaram para US$ 37,7 bilhões em 2025.
No primeiro semestre de 2026, as vendas brasileiras ao mercado norte-americano somaram US$ 17,4 bilhões, uma redução de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A queda foi influenciada principalmente pela diminuição dos embarques de petróleo bruto e de produtos de ferro e aço. A participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras também caiu de 12,1% para 9,4% entre os primeiros semestres de 2025 e 2026.
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Os Estados Unidos continuam sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil, além de importantes fornecedores de máquinas, equipamentos, produtos químicos, medicamentos, componentes tecnológicos e insumos industriais.
Empresas podem reduzir produção e investimentos
Com as tarifas, os produtos brasileiros chegam mais caros ao mercado norte-americano e perdem competitividade diante de concorrentes de outros países.
As empresas mais dependentes das vendas para os Estados Unidos poderão enfrentar cancelamento de contratos, redução de pedidos e necessidade de redirecionar mercadorias para outros destinos. Em situações mais graves, poderão ocorrer cortes de produção, suspensão de investimentos e redução de empregos.
Os impactos tendem a ser maiores nas regiões que concentram indústrias exportadoras, especialmente nos setores de alimentos, madeira, mineração, siderurgia, pedras ornamentais e bens manufaturados.
A diversificação de mercados passa, portanto, a ser uma prioridade. A ampliação das relações comerciais com Europa, Ásia, América Latina, Oriente Médio e África pode reduzir a dependência dos Estados Unidos, mas a conquista de novos compradores exige tempo, adaptação de produtos e investimento em logística.
Retaliação pode afetar o custo de vida
A escolha dos produtos norte-americanos que poderão sofrer contramedidas será decisiva para evitar uma pressão adicional sobre os preços no Brasil.
O país importa dos Estados Unidos equipamentos industriais, combustíveis, medicamentos, produtos químicos, componentes eletrônicos e tecnologias utilizadas por diferentes cadeias produtivas. Se esses itens forem tarifados, o custo poderá ser repassado para empresas e consumidores.
Uma resposta indiscriminada poderia encarecer a produção nacional, elevar preços e alimentar a inflação. Também poderia afetar setores brasileiros que dependem de máquinas ou matérias-primas norte-americanas.
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Por esse motivo, uma eventual lista de retaliação deverá priorizar produtos com fornecedores alternativos ou similares fabricados no Brasil, preservando medicamentos, equipamentos essenciais e insumos sem substituição imediata.
Comércio bilateral pode perder ainda mais força
Uma escalada comercial teria consequências que ultrapassam as exportações e importações. Brasil e Estados Unidos mantêm relações importantes nas áreas de energia, petróleo, aviação, tecnologia, serviços financeiros, indústria química, agronegócio e infraestrutura.
O prolongamento da disputa pode aumentar a insegurança empresarial, adiar investimentos e comprometer cadeias produtivas integradas entre os dois países. Empresas norte-americanas instaladas no Brasil também poderiam ser atingidas pelo aumento dos custos e pela redução do comércio bilateral.
Embora a Lei da Reciprocidade represente um instrumento legítimo de defesa, a prioridade brasileira continua sendo a negociação. O objetivo é conseguir a revisão das tarifas impostas pelos Estados Unidos sem transformar a disputa em uma guerra comercial.
O desafio do governo será demonstrar firmeza sem transferir o custo da reação para as empresas e para a população. Em conflitos tarifários, a resposta mais eficiente nem sempre é a mais ampla, mas aquela que produz pressão política e econômica com o menor impacto possível sobre a produção, os empregos e o bolso do consumidor.
Fontes: Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços; Câmara de Comércio Exterior; Lei nº 15.122/2025.




