EDITORIAL
Projeto apresentado à Prefeitura prevê formação superior para os setores marítimo, portuário e de comércio exterior e poderá ampliar a integração entre universidades, empresas e poder público
Macaé, cidade que construiu sua projeção nacional a partir da indústria de petróleo e gás, poderá dar um novo passo na transformação de sua vocação econômica em conhecimento. A possibilidade de instalação da Faculdade de Estudos Marítimos e Portuários (Femapor) abre caminho para que o município deixe de ser reconhecido apenas como base operacional da energia offshore e avance também como centro de formação, pesquisa e inovação ligado ao mar.

O projeto foi apresentado ao prefeito Welberth Rezende durante reunião realizada no dia 2 de setembro, na sede da Petrobras, em Imbetiba. A iniciativa é conduzida pelo Instituto Mar e Portos (Imapor) e foi discutida com a participação de representantes da administração municipal e da estatal. A previsão inicial é de que as atividades comecem no segundo semestre de 2027.
A proposta, entretanto, ainda não representa uma decisão definitiva. A Prefeitura informou que avaliará a viabilidade técnica e jurídica da parceria, incluindo a forma de participação do município, eventuais mecanismos de incentivo e as medidas capazes de ampliar o acesso da população macaense à futura instituição.
“Precisamos conhecer como funciona esse projeto exatamente e como pode ser a participação do município enquanto poder público”, afirmou o prefeito.
Vocação econômica encontra estrutura acadêmica
A escolha de Macaé apresenta coerência estratégica. O município abriga uma extensa cadeia de empresas de petróleo, gás, navegação e apoio marítimo offshore, reunindo operações, fornecedores e profissionais que convivem diariamente com as demandas do setor. Isso permitiria à faculdade trabalhar próxima do mercado real, utilizando a cidade como ambiente de aprendizado, pesquisa aplicada e desenvolvimento de soluções.
A Femapor pretende atuar em áreas como operações marítimas, logística, transporte marítimo — conhecido internacionalmente como shipping —, gestão comercial, atividades portuárias e comércio exterior. Além dessas formações, a presença da instituição poderia estimular estudos relacionados à segurança operacional, automação naval, tecnologia oceânica, monitoramento ambiental, energias renováveis offshore, pesca, aquicultura e conservação dos ecossistemas costeiros.

Macaé também parte de uma condição diferenciada no interior fluminense: já possui um polo de ensino superior construído com a participação de instituições públicas municipais, estaduais e federais. A cidade reúne a Faculdade Professor Miguel Ângelo da Silva Santos (FeMASS), o Centro Multidisciplinar da UFRJ, a presença da UFF e o Laboratório de Engenharia e Exploração de Petróleo (Lenep) da UENF, além de outras instituições de formação profissional.
Essa estrutura torna possível pensar a nova faculdade como parte de um ecossistema acadêmico já existente. Parcerias poderão permitir o compartilhamento de laboratórios, professores, projetos de extensão, pesquisas, programas de pós-graduação e atividades de inovação. O maior ganho surgirá se a Femapor complementar as competências disponíveis na cidade, evitando a simples repetição de cursos.
Formação conectada ao emprego e à inovação
Uma faculdade especializada poderá ajudar a reduzir a distância entre as qualificações oferecidas aos jovens e as necessidades das empresas. O Imapor argumenta que o setor marítimo brasileiro enfrenta carência de profissionais especializados e que algumas empresas ainda precisam capacitar trabalhadores no exterior.
Formar essa mão de obra em Macaé poderá ampliar as oportunidades para moradores do município e de toda a região, reter talentos e facilitar o acesso das empresas a profissionais preparados. Para que esse benefício seja socialmente abrangente, uma eventual participação do poder público deverá estar vinculada a contrapartidas claras, como bolsas de estudo, programas de estágio, pesquisas de interesse público e oportunidades destinadas à população local.
Os efeitos econômicos também poderão ultrapassar os limites da sala de aula. A chegada de estudantes, professores e pesquisadores tende a movimentar moradia, alimentação, transporte, comércio, eventos e serviços. Ao mesmo tempo, a aproximação entre academia e empresas poderá favorecer o surgimento de startups, novos fornecedores e tecnologias aplicadas às atividades marítimas.
Planejamento será decisivo
O potencial do projeto é expressivo, mas sua implantação exigirá planejamento. Será necessário definir o modelo institucional, obter as autorizações educacionais, estruturar um corpo docente qualificado e garantir investimentos permanentes em laboratórios, simuladores e pesquisa. Uma instituição voltada ao mar não pode limitar-se a oferecer aulas teóricas; precisa proporcionar formação prática e contato permanente com as operações do setor.

Outro desafio será construir uma governança capaz de reunir Prefeitura, universidades, Petrobras, empresas e entidades profissionais sem subordinar a formação acadêmica apenas às necessidades imediatas da indústria. O currículo deverá acompanhar a transição energética e a ampliação da economia azul, preparando profissionais para atividades que vão além do petróleo.
Conhecimento como nova riqueza
A possibilidade de receber a Femapor é compatível com a trajetória de Macaé e com o esforço do município para diversificar sua economia. Entretanto, o sucesso não deverá ser medido apenas pela abertura de um prédio ou pelo número inicial de matrículas. Os indicadores mais importantes serão a qualidade dos cursos, a inclusão dos estudantes locais, a produção científica, a geração de empregos e a capacidade de transformar pesquisas em soluções e novos negócios.
Se for construída com segurança jurídica, financiamento duradouro e integração verdadeira com as instituições já instaladas, a Faculdade de Estudos Marítimos e Portuários poderá representar muito mais do que uma nova opção de graduação. Poderá ajudar Macaé a avançar da condição de capital da energia para a de referência brasileira em conhecimento, inovação e desenvolvimento sustentável a partir do mar.
Fontes consultadas
- Prefeitura de Macaé — proposta da Faculdade Marítima
- Centro Multidisciplinar UFRJ–Macaé
- UENF — Laboratório de Engenharia e Exploração de Petróleo
- FeMASS — apresentação e cursos




