Redação Portal Economia & Negócios
Embora existam regras de transparência, pesquisas revelam fragilidades no controle financeiro e reforçam a necessidade de orientação sobre a correta aplicação dos empréstimos
Para o pequeno empresário, o crédito pode representar a oportunidade de modernizar equipamentos, ampliar instalações, reforçar o estoque ou atravessar um período de redução nas vendas. Entretanto, quando o dinheiro é contratado sem planejamento ou utilizado em despesas pessoais, o empréstimo deixa de impulsionar o negócio e passa a ameaçar sua sobrevivência.
Uma pesquisa do Sebrae sobre os hábitos financeiros dos pequenos negócios, divulgada em janeiro de 2026, revelou que 61% dos empreendedores brasileiros ainda pagam despesas da empresa utilizando a conta pessoal. O percentual praticamente não mudou em relação a 2023, quando estava em 60%.
O levantamento também mostrou que apenas 30% fazem o controle financeiro por meio de planilhas, enquanto 25% utilizam anotações em cadernos, 20% recorrem a aplicativos ou sistemas digitais e 10% reconhecem não possuir qualquer tipo de controle.
Os dados não significam que esses empresários utilizem empréstimos de maneira irregular, mas revelam uma fragilidade importante: a dificuldade de separar o patrimônio da família do dinheiro pertencente ao negócio.
Capital de giro lidera procura por empréstimos
Outra pesquisa do Sebrae, intitulada “Financiamento dos Pequenos Negócios”, mostrou que o capital de giro foi a finalidade apontada por 41% dos empresários que buscaram crédito em 2025.
A compra de máquinas e equipamentos apareceu em segundo lugar, com 29%, seguida pela reforma ou ampliação do negócio, com 21%, e pelo refinanciamento de dívidas, mencionado por 6%.
Esses percentuais representam a finalidade declarada no momento da procura pelo empréstimo. Entretanto, ainda são escassas as informações públicas capazes de demonstrar se, depois da liberação, o dinheiro foi efetivamente empregado no objetivo apresentado ao banco.
É justamente nesse ponto que surge uma questão importante: o empresário recebe somente o dinheiro e o contrato ou também é preparado para utilizar corretamente o recurso?
Quando o investimento vira consumo familiar
A reflexão ganhou força a partir de uma situação testemunhada pelo jornalista e editor do Portal Economia & Negócios, Fernando Passeado. Um proprietário rural conseguiu financiamento para investir em sua fazenda, mas destinou parte do dinheiro à compra de carros para familiares e à reforma da residência.
Se os veículos e as obras não estavam vinculados à atividade produtiva e previstos no projeto financiado, o negócio ficou com a dívida, mas sem receber investimentos capazes de aumentar sua produção ou gerar receita para pagar as parcelas.
Esse tipo de comportamento revela um erro recorrente: considerar o empréstimo uma renda adicional ou uma antecipação de lucro. Na verdade, crédito é um recurso temporário, que chega acompanhado de juros, prazo e obrigação de pagamento.
A utilização inadequada também pode trazer consequências contratuais. Em uma operação de livre utilização, o empresário possui maior flexibilidade, embora continue assumindo os riscos financeiros de suas escolhas. Em linhas destinadas a uma finalidade específica, porém, o uso diferente daquele previsto pode caracterizar descumprimento do contrato.
No crédito rural, o Manual de Crédito Rural do Banco Central estabelece regras de fiscalização e monitoramento. A aplicação em finalidade diferente da autorizada pode provocar a desclassificação da operação, a perda das condições favorecidas e outros ajustes previstos no contrato. Caso existam documentos ou informações falsas, outras responsabilidades poderão ser apuradas.
Transparência existe, mas não substitui orientação
As instituições financeiras possuem obrigações relacionadas à transparência. A Resolução nº 4.881 do Conselho Monetário Nacional determina que pessoas físicas, microempresas e empresas de pequeno porte recebam, antes da contratação, as informações referentes ao Custo Efetivo Total, o chamado CET.
O CET reúne juros, tarifas, tributos, seguros e demais despesas cobradas na operação. É uma informação essencial para que o empresário não compare somente o valor das parcelas ou a taxa de juros anunciada, mas saiba quanto efetivamente pagará pelo empréstimo.
A Resolução nº 4.949 também determina que os bancos apresentem informações claras sobre direitos, deveres, custos, riscos, penalidades e demais condições, além de oferecerem produtos compatíveis com as necessidades e os objetivos do cliente.
Essas exigências, entretanto, não significam que todo empréstimo empresarial seja acompanhado por uma consultoria financeira. Em grande parte das operações comuns, o banco analisa o risco, informa as condições, libera o recurso e cobra as parcelas. A responsabilidade pela aplicação e pela administração do dinheiro permanece principalmente com o tomador.
O acompanhamento aparece de forma mais clara no Microcrédito Produtivo Orientado, criado justamente para combinar financiamento com avaliação da atividade, orientação e relacionamento com o empreendedor.
O Pronampe também estabelece que seus recursos sejam destinados às atividades econômicas, podendo financiar investimentos e capital de giro, mas proíbe que o dinheiro seja utilizado para distribuir lucros e dividendos entre os sócios.
Empréstimo precisa gerar capacidade de pagamento
Antes de contratar crédito, o empresário deveria responder a algumas perguntas básicas:
- Qual é a finalidade exata do dinheiro?
- O investimento aumentará receitas, reduzirá custos ou protegerá o funcionamento da empresa?
- Qual é o Custo Efetivo Total da operação?
- Quanto será pago ao final do contrato?
- O fluxo de caixa suporta as parcelas, inclusive em meses de vendas menores?
- Como a aplicação dos recursos será registrada e comprovada?
- Quais são as consequências de utilizar o dinheiro em outra finalidade?
O empréstimo saudável é aquele que possui destino definido e uma fonte realista de pagamento. Se o recurso financia uma máquina, por exemplo, a economia ou a produção adicional gerada pelo equipamento precisa contribuir para o pagamento da dívida. Se reforça o capital de giro, deve sustentar o ciclo de compras, vendas e recebimentos da empresa.
Quando o crédito empresarial financia carros particulares, reformas residenciais ou consumo familiar, a empresa assume um compromisso sem receber o retorno correspondente.
Educação financeira deve acompanhar o crédito
A experiência mostra que ampliar o acesso aos empréstimos não é suficiente. Especialmente nas linhas públicas ou subsidiadas, seria importante combinar a liberação do dinheiro com um plano simplificado de aplicação, separação da conta empresarial, comprovação das despesas e acompanhamento nos meses seguintes.
Bancos, agências de desenvolvimento, prefeituras, entidades empresariais, contadores e instituições como o Sebrae podem exercer um papel mais ativo nesse processo.
O Brasil avançou nas regras de transparência bancária, mas ainda precisa ampliar a orientação prática. O contrato informa quanto o empresário deverá pagar; a educação financeira deve ajudá-lo a entender como utilizar o dinheiro para produzir o resultado que pagará essa dívida.
Crédito bem aplicado fortalece empresas, gera empregos e movimenta a economia. Utilizado como extensão da renda familiar, pode apenas antecipar uma crise que aparecerá quando as parcelas começarem a vencer.

