Queda sustentável da taxa básica dependeria de maior equilíbrio das contas públicas e poderia reduzir o custo do crédito, facilitar a renegociação de dívidas e estimular novos investimentos
Por Bruno Durão advogado e tributarista / Colunista E&N
A possibilidade de o Brasil voltar a conviver com juros mais baixos ganhou espaço no debate econômico após André Esteves, chairman e sócio sênior do BTG Pactual, afirmar que o país vive uma “oportunidade de ouro” para reduzir a taxa Selic.
Segundo o banqueiro, a taxa básica, no patamar de 14% ao ano mencionado em sua avaliação, poderia chegar a 7% caso o Brasil consiga melhorar a trajetória da dívida pública e ampliar a confiança na condução das contas do governo.

Mais do que uma discussão restrita ao mercado financeiro, o tema afeta diretamente o cotidiano de empresas e consumidores. Afinal, a Selic influencia o custo dos empréstimos, financiamentos, cartões de crédito, capital de giro e demais operações bancárias.
Para Bruno Medeiros Durão, advogado tributarista, especialista em Recuperação de Tributos e Direito Bancário e fundador da DAP Advocacia — Durão, Almeida & Pontes Advogados Associados, a manutenção dos juros elevados por períodos prolongados aumenta a pressão sobre empresas que dependem de crédito para sustentar suas operações, investir ou reorganizar dívidas.
“Quando a taxa básica permanece elevada por muito tempo, o impacto não fica restrito ao mercado financeiro. Ele chega ao caixa das empresas, encarece financiamentos, aumenta o custo de capital de giro e pode transformar uma dificuldade financeira pontual em um problema de endividamento muito maior.”
Equilíbrio fiscal é fundamental para uma queda sustentável
A avaliação de André Esteves ocorre em um cenário no qual o crescimento da dívida pública é apontado como um dos principais obstáculos para uma redução mais consistente dos juros.
Quando investidores percebem maior risco fiscal, passam a exigir remunerações mais elevadas para financiar a dívida do país. Esse movimento pode manter os juros pressionados, dificultando a expansão do crédito e criando um ambiente menos favorável aos investimentos produtivos.
Na avaliação de Durão, uma trajetória consistente de redução da Selic poderia melhorar as condições para a reestruturação financeira das empresas.
“Uma redução consistente dos juros teria efeito direto sobre a capacidade de empresas renegociarem dívidas e retomarem investimentos. Quanto menor o custo financeiro, maior é a possibilidade de uma companhia reorganizar seu passivo sem comprometer uma parcela excessiva do faturamento apenas com o pagamento de juros.”
Com crédito menos oneroso, empresas também poderiam recuperar sua capacidade de investir na expansão das atividades, na compra de equipamentos, na inovação e na contratação de trabalhadores.
Pequenas e médias empresas são as mais pressionadas
Os efeitos dos juros elevados são ainda mais intensos sobre pequenas e médias empresas, que geralmente têm menos garantias para oferecer aos bancos, menor poder de negociação e poucas alternativas para substituir linhas de financiamento mais caras.
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Esse cenário aumenta o risco de inadimplência, compromete o fluxo de caixa e pode levar empresas economicamente viáveis a enfrentar dificuldades por causa do peso das despesas financeiras.
Para Durão, os empresários não devem aguardar uma eventual queda da Selic para começar a reorganizar suas obrigações.
“O empresário não deve esperar a taxa de juros cair para começar a organizar suas dívidas. Em um ambiente de juros altos, é fundamental mapear contratos, revisar taxas, identificar o custo efetivo das operações e avaliar se existem alternativas de renegociação ou reestruturação.”
O especialista recomenda atenção especial aos contratos bancários, principalmente quando o pagamento de juros e encargos começa a comprometer a saúde financeira do negócio.
“Antes de simplesmente contratar uma nova linha para pagar uma dívida antiga, é preciso entender quanto aquela operação realmente custa. Taxas, encargos, garantias e condições de vencimento podem fazer uma dívida aparentemente administrável crescer rapidamente.”
Consumidores também sentiriam os efeitos
Para os consumidores, a redução dos juros poderia representar, ao longo do tempo, melhores condições para financiar imóveis, veículos e outros bens de maior valor, além de favorecer a renegociação de dívidas.
O crédito mais acessível também tende a estimular o consumo, movimentando setores como comércio, serviços, construção civil e indústria. Entretanto, esse efeito precisa ocorrer de maneira equilibrada, sem provocar novo aumento da inflação ou estimular um endividamento excessivo das famílias.
A diminuição do custo financeiro poderia ainda reduzir a parcela da renda comprometida com juros, ampliando o poder de compra e diminuindo o risco de inadimplência.
Queda da Selic não significa crédito barato imediatamente
Mesmo em um cenário de redução da taxa básica, Durão ressalta que o movimento não seria necessariamente repassado de forma imediata e integral para todas as modalidades de crédito.
O custo final de uma operação bancária também considera fatores como risco de inadimplência, prazo, garantias apresentadas, perfil do tomador, impostos, custos administrativos e condições do mercado.
Por isso, a eventual queda da Selic para 7% dependeria não apenas das decisões do Banco Central, mas também de avanços concretos no equilíbrio fiscal, no controle da dívida pública e na melhoria das expectativas econômicas.
A redução sustentável dos juros poderia abrir espaço para mais investimentos, geração de empregos, renegociação de dívidas e recuperação do consumo. No entanto, para que esses benefícios cheguem efetivamente às empresas e às famílias, será necessário combinar responsabilidade nas contas públicas, inflação controlada e maior concorrência no mercado de crédito.




