sexta-feira, julho 17

Por Fernando Passeado

Os números divulgados pelo IBGE nesta sexta-feira chamam a atenção. Entre os 16 segmentos industriais que registraram crescimento, o maior destaque ficou para a fabricação de produtos farmoquímicos e farmacêuticos, com avanço de 13,1%. Em contrapartida, a produção de alimentos recuou 1,3% e a de produtos têxteis caiu 4,0%.

À primeira vista, alguém poderia concluir que o brasileiro está comprando mais medicamentos do que alimentos ou roupas. Mas essa interpretação seria precipitada.

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O levantamento do IBGE mede produção industrial, e não o consumo final das famílias. Ou seja, o crescimento da indústria farmacêutica pode refletir fatores como recomposição de estoques, aumento das exportações, maior produção para programas públicos de saúde, lançamento de novos medicamentos ou o envelhecimento da população brasileira, que naturalmente amplia a demanda por tratamentos contínuos.

Por outro lado, a retração da indústria alimentícia não significa necessariamente que as pessoas estejam comendo menos. Ela pode estar relacionada à sazonalidade da produção, à redução dos estoques das indústrias, à substituição por produtos importados ou mesmo ao comportamento do varejo. O mesmo raciocínio vale para o setor têxtil, que enfrenta forte concorrência de produtos importados, especialmente asiáticos, além da desaceleração do consumo de bens duráveis e semiduráveis.

No entanto, há um sinal econômico que merece atenção. O crescimento consistente da indústria farmacêutica também revela uma mudança estrutural no perfil da sociedade brasileira. O país está envelhecendo rapidamente, as doenças crônicas aumentam e os gastos com saúde passam a ocupar uma parcela cada vez maior do orçamento das famílias.

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Enquanto isso, setores ligados ao consumo discricionário, como vestuário, tendem a sofrer quando a renda disponível fica mais apertada. Em momentos de restrição financeira, o consumidor pode adiar a compra de roupas novas, mas dificilmente deixará de adquirir um medicamento de uso contínuo.

Portanto, não é correto afirmar que os brasileiros estão consumindo mais remédios do que alimentos e vestuário apenas com base nesses dados do IBGE. O que os números indicam é que a indústria farmacêutica vive um momento de expansão superior ao de outros segmentos da manufatura brasileira, impulsionada por fatores demográficos, econômicos e estruturais.

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Para a economia, essa tendência também representa uma oportunidade. O fortalecimento da indústria farmacêutica pode estimular investimentos em pesquisa, inovação, produção nacional de insumos e geração de empregos qualificados. Ao mesmo tempo, a fraqueza de setores tradicionais como alimentos e têxteis serve de alerta para a necessidade de aumentar competitividade, produtividade e capacidade de consumo da população.

Em outras palavras, os dados não mostram um país que deixou de comer para comprar remédios. Revelam, sim, uma economia em transformação, na qual saúde ganha cada vez mais peso, enquanto outros segmentos enfrentam desafios importantes para voltar a crescer.

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