sábado, março 7

PAUTA DE DOMINGO, por Fernando Passeado

Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a uma expansão sem precedentes das grandes redes de farmácias e drogarias. O fenômeno não se restringe mais às capitais e regiões metropolitanas: cidades médias e até pequenas já contam com estabelecimentos de grandes grupos, muitas vezes em disputa acirrada pelos melhores pontos comerciais.

A explicação para esse crescimento vai além da simples demanda por medicamentos. Analistas apontam o forte apoio da indústria farmacêutica, interessada em ampliar canais de distribuição, e a fragilidade do sistema público de saúde como fatores centrais. Com a demora para conseguir atendimento em postos e hospitais, sobretudo entre a população que não tem acesso a planos privados, muitos brasileiros passaram a ver as farmácias como um substituto parcial da atenção básica.

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Hoje, é comum encontrar nesses estabelecimentos serviços de aferição de pressão, medição de glicemia e até pequenos consultórios para consultas rápidas. A farmácia se consolida como uma extensão da saúde, mas em um ambiente fortemente orientado pela lógica do consumo.

A mercantilização da saúde

Essa transformação levanta uma questão delicada: até que ponto a presença das farmácias como “porta de entrada” do sistema de saúde é positiva? Para os consumidores, a conveniência é inegável — facilidade de acesso, horários estendidos e preços competitivos em grandes redes. Mas há riscos evidentes.

A automedicação é um deles. Com prateleiras repletas de medicamentos de venda livre e ausência de campanhas públicas consistentes para alertar sobre os perigos desse hábito, o brasileiro tem cada vez mais acesso a remédios sem acompanhamento médico adequado. O resultado pode ser desde efeitos colaterais inesperados até a ineficácia do tratamento ou agravamento de doenças.

Além disso, a mercantilização da saúde pode deslocar o foco do bem-estar do paciente para o volume de vendas. Com farmacêuticos pressionados a bater metas, corre-se o risco de privilegiar a comercialização em detrimento da orientação cuidadosa.

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O jogo da indústria

Outro ponto central é a relação com as grandes indústrias farmacêuticas. A concentração do setor fortalece os laboratórios que dominam o mercado, que encontram nas redes de farmácias um canal poderoso para promover determinados medicamentos em larga escala. Para pequenas farmácias independentes, a competição torna-se quase insustentável.

O futuro do setor

Especialistas apontam que, se por um lado a expansão das farmácias amplia o acesso da população a serviços básicos, por outro é urgente que políticas públicas acompanhem essa transformação. O Brasil precisa de campanhas nacionais contra a automedicação, de regulação mais rígida sobre a venda de medicamentos e, sobretudo, de investimentos consistentes na saúde pública, para que farmácias não se tornem o único recurso da população mais vulnerável.

Enquanto isso, o setor segue crescendo em ritmo acelerado, impulsionado por um mercado bilionário e por consumidores cada vez mais dependentes da conveniência das grandes redes. A pergunta que fica é: até que ponto o cidadão está protegido em meio a essa engrenagem de interesses comerciais?

O Portal Economia & Negócios pesquisou e traz aos nosso leitores alguns números do setor farmacêutico

Panorama Geral

O Brasil encerrou 2024 com cerca de 93,7 mil farmácias e drogarias em operação

Em uma estimativa mais abrangente, o país contava com aproximadamente 124 mil farmácias, das quais 83,7% pertencem a micro ou pequenas empresas

Evolução e participação de mercado

Desde 2003, o número de estabelecimentos saltou de cerca de 55 mil para 90 mil, um crescimento de 63% em 20 anos

As grandes redes, embora representem apenas 15% dos pontos de venda, respondem por mais de 50% das vendas no país.

Faturamento e Expansão

O varejo farmacêutico movimentou R$ 158,4 bilhões em 2024, com crescimento anual de 11%

As grandes redes associadas à Abrafarma faturaram R$ 103,14 bilhões em 2024 (47% do total do setor), com expectativa de superar os R$ 115 bilhões em 2025 No acumulado de janeiro a setembro de 2024, as mesmas redes registraram faturamento de R$ 76 bilhões, um crescimento real de 14,1% sobre o ano anterior

Independentes e Associativismo

Existem cerca de 55,348 farmácias independentes, com faturamento médio mensal variável por região — no Sudeste, entre R$ 64 mil e R$ 92 mil por unidade

Em 2024, foram abertas 15.918 novas unidades, das quais 63,3% (10.084) são lojas independentes; 2.245 são associativistas e 1.594 pertencem a grandes redes

Serviços Clínicos e Regionalização

A oferta de serviços clínicos nas farmácias atingiu mais de 14 milhões de atendimentos em 2024, beneficiando cerca de 8,3 milhões de pacientes em 4,9 mil unidades espalhadas por 1.400 municípios.

A distribuição geográfica do setor em 2024 revela:

Sudeste: 36,7 mil lojas

Nordeste: 26,2 mil

Sul: 14,9 mil

Centro-Oeste: 8,9 mil

Norte: 6,8 mil

Aberturas x Fechamentos

  • Apesar do ritmo acelerado de abertura de novas lojas, especialmente independentes, o setor também registra fechamentos: nas independentes, fecharam-se cerca de 81% das lojas encerradas nos últimos dois anos entre 2021 e 2023

Interpretação dos Dados:

Temasituação
Expansão nacionalAs farmácias se espalham ao longo do país — de grandes centros a pequenas cidades —, impulsionadas pela conveniência e pela insuficiência do sistema público.
Domínio das redesGrandes grupos concentram fatia expressiva de faturamento, mesmo sendo minoria em pontos de venda, revelando poder econômico e estratégico.
Resiliência e competitividadeO associativismo e as independentes crescem com força, mas enfrentam altos índices de fechamento, apontando à necessidade de apoio e modernização.
Serviços clínicos em altaFarmácias têm atuado cada vez mais como pontos de saúde comunitários, substituindo ou complementando a rede pública.
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