O vinho e a gastronomia entre tradição, inovação e negócios que fervilham …
Borbulhas Quentes & Frescas, por Alexandre Ferreira
O CICLO DA VIDEIRA E A IMORTALIDADE DE UM VISIONÁRIO:
Olá diletos comensais! Hoje vamos dedicar o espaço de nossa Coluna para prestar uma mais que merecida homenagem a um dos nomes importantes na história da viticultura mundial. MICHEL ROLLAND!
Assim como a videira que dorme no inverno e renasce na primavera, Michel Rolland nos deixou essa semana, mas também deixou um legado que transcende o tempo.
O mundo do vinho perdeu um de seus maiores visionários em 20 de março de 2026, mas sua influência permanecerá viva em cada garrafa que carrega sua assinatura sensorial. Com 78 anos completos, Rolland partiu, mas sua filosofia de trabalho — assim como o ciclo perene da vinha — segue frutificando.
Quem Foi Michel Rolland?
Quem acompanha nosso vespertino semanal, na série sobre Argentina já falamos um pouco dessa figura ilustre e sua importância.
Nascido em 1947 em Libourne, na região de Bordeaux, Michel Rolland foi o enólogo cuja abordagem revolucionária redefiniu a viticultura moderna.
Origem: Rolland já trazia em se DNA “cepas”, veio de uma família tradicional de produtores. Seu avô fundou o Château Bon Pasteur em Pomerol, Bordeaux, onde ele iniciou sua prática profissional.
Formado pela Universidade de Bordeaux, onde mais tarde estabeleceu um laboratório de análises renomado, focado no equilíbrio entre taninos e acidez. Ele se tornou o “consultor voador” mais influente do mundo, sendo o precursor do conceito de “flying winemaker”.
O termo “Flying Winemaker” (Enólogo Voador) define o profissional que atua como consultor técnico para diversas vinícolas ao redor do mundo, cruzando oceanos para acompanhar diferentes safras em um mesmo ano.
Duas Safras no Mesmo Ano
Graças à alternância das estações entre os hemisférios Norte e Sul, o enólogo voador consegue trabalhar na colheita da Europa/EUA (setembro/outubro) e, poucos meses depois, na colheita da América do Sul/Oceania/África do Sul (fevereiro/março). Isso permite uma curva de aprendizado e experiência muito mais veloz que a de um enólogo residente.
O Papel do Consultor Estratégico
Diferente do enólogo que mora na vinícola e cuida do dia a dia, o flying winemaker:
- Visita em momentos críticos: Aparece na hora da poda, na decisão da data da colheita e, principalmente, no momento do assemblage (o corte final/mistura dos vinhos).
- Aporta tecnologia: Introduz técnicas modernas (como a micro-oxigenação ou o uso específico de barricas) em regiões que ainda usam métodos rudimentares.
A “Globalização” do Gosto
Esse modelo de trabalho gerou uma revolução (e, também, críticas, como em tudo no mundo):
Lado Positivo: Elevou drasticamente o padrão de qualidade de vinhos em países “emergentes” (como Argentina, Chile e Brasil), que passaram a produzir vinhos competitivos no mercado internacional.
Crítica: Alguns especialistas, como no documentário Mondovino, argumentam que o enólogo voador tende a criar vinhos com um “estilo internacional” padronizado, diminuindo a expressão única do terroir local em favor de um paladar que agrada aos grandes críticos (como Robert Parker).
Michel Rolland foi o maior expoente e o rosto desse conceito.
Rolland foi o primeiro a transformar isso em um modelo de negócio em escala global. Ele não apenas fazia o vinho; ele vendia uma assinatura de qualidade. Ter o nome de um “enólogo voador” de renome no rótulo ou na ficha técnica tornou-se um selo de garantia para investidores e consumidores de luxo.
O termo hoje evoluiu: muitos jovens enólogos viajam o mundo para aprender, mas poucos atingem o status de “mestre consultor” que Michel Rolland ostentou por quatro décadas.
Seu estilo, marcado por vinhos de fruta madura, taninos sedosos e grande concentração, transformou mercados e elevou o padrão de qualidade global.
O El Dorado Argentino: Clos de los Siete
Com presença nas principais cidades do Mundo vínico, foi no Valle de Uco, na Argentina, que Rolland concebeu o audacioso Clos de los Siete. Ao reunir sete famílias francesas, ele sintetizou a potência dos Andes com a elegância europeia.
Seu trabalho foi fundamental para colocar o Malbec argentino no radar da alta gama internacional. “Rolland nos ensinou que o terroir não é apenas solo e clima, mas também coragem”, comentou um produtor local durante as homenagens.
O Legado em Números
Mais de 100 vinícolas sob sua consultoria em mais de 13 países (incluindo França, EUA, Argentina, Chile e África do Sul).
Mais de 40 anos de uma carreira meteórica.
Protagonista em dezenas de vinhos que alcançaram a pontuação próxima ou máxima (100 pontos).
Filosofia: Precisão e Paixão
Para Rolland, sua metodologia combinava:
Maturação Fenólica: Colheita no ponto exato de maturação dos taninos.
Micro-oxigenação: Técnica que ele ajudou a popularizar para amaciar vinhos jovens.
Respeito à Identidade: Harmonia entre a intervenção tecnológica e a expressão da uva.
Vinhos emblemáticos e Premiações
Abaixo, destacamos rótulos onde a participação de Michel Rolland (como proprietário ou consultor principal) resultou em aclamação pela crítica especializada:
| Vinho | Safra | Canal |
| Clos Apalta (Lapostolle) | 2005 | Wine Spectator |
| Château Angélus | 2012 | Robert Parker (Wine Advocate) |
| Château Pavie | 2000 | Robert Parker (Wine Advocate) |
| Harlan Estate | 1997 | Wine Enthusiast / Parker |
| Clos de los Siete | 2019 | James Suckling |
Brasil também agraciado por Michel Rolland
Para sorte dos consumidores e produtores brasileiros, tivemos o privilégio da consultoria de Michel Rolland no Brasil, contribuindo para evolução do padrão de enologia nacional.
A passagem de Michel Rolland pelo Brasil foi marcada por uma consultoria de mais de uma década com a Vinícola Miolo, iniciada em 2003. Esse trabalho foi um divisor de águas para a viticultura nacional, elevando o padrão técnico e a percepção internacional dos vinhos brasileiros.
O Principal Projeto: Miolo Lote 43
O projeto mais emblemático dessa parceria foi a lapidação do Miolo Lote 43, considerado um dos vinhos tintos icônicos do Brasil.
Conceito: Trata-se de um corte bordalês (Merlot e Cabernet Sauvignon) elaborado apenas em safras excepcionais, proveniente do vinhedo original da família no Vale dos Vinhedos.
Influência de Rolland: O consultor ajudou a definir o ponto ideal de maturação das uvas e a técnica de envelhecimento, buscando vinhos com maior estrutura, concentração e potencial de guarda.
Outras Contribuições Relevantes
Além do Lote 43, Rolland esteve envolvido em outros marcos da Miolo:
Cuvée Giuseppe: Vinho tinto que recebeu reconhecimento internacional precoce, incluindo premiações em concursos na França com a consultoria do enólogo.
Millesime: Participou da elaboração de espumantes de alta gama, como o Miolo Millesime, um blend de Chardonnay e Pinot Noir que surpreendeu a crítica pela acidez e qualidade.
Expansão para a Campanha Gaúcha: Rolland auxiliou na identificação de novos terroirs fora da Serra Gaúcha, participando do lançamento de rótulos como o Quinta do Seival Cabernet Sauvignon.
A consultoria de Rolland no Brasil não se limitou apenas às fórmulas dos vinhos, mas incluiu o treinamento de enólogos locais e a modernização de laboratórios, deixando uma base técnica que a Miolo utiliza até hoje sob o comando de Adriano Miolo.
Conclusão
Faltariam páginas para descrever a importância e legado de Michel Rolland para o mundo vínico.
Hoje, despedimo-nos Rolland, não com tristeza, mas com alegria de saber que cumpriu o ciclo da vida, assim como as videiras.
Alegria de podermos mantê-lo vivo em nossa memória e pelo seu legado que se eterniza. Muito obrigado!
“O vinho não é feito apenas de uva, mas de tempo e memória. Michel Rolland entendeu isso como poucos.”
Alexandre Ferreira
Viva, até a próxima semana!
Alexandre Ferreira
Editor da Coluna de vinhos e gastronomia “Borbulhas Quentes & Frescas”, correspondente do Portal Economia & Negócios; Founder na Farinatta Bistrô e Farinatta Grapes Wine Store; curador de vinhos.
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