Por Alexandre Ferreira – COLUNA 021 – 11/12/25
O vinho e a gastronomia entre tradição, inovação e negócios que fervilham …
Existem vários tipos de vinhos e que obedecem a critérios diferenciados de produção e guarda (tintos, brancos, espumantes, frizantes, champagnes, cavas, do Porto etc.)
Hoje vamos dedicar atenção ao vinho Rosé.
Um vinho de muita versatilidade -geralmente frescos e ligeiros -, propício à estação vindoura de verão. Serve como entrada, aperitivo, alguns pescados, ou mesmo só e apenas, uma boa companhia. Há também rosés mais estruturados que suportam pratos igualmente mais intensos.
Embora o brasileiro esteja começando a acostumar com os rosés, ainda não são tão habituais, mas o índice de consumo vem aumentando, ganhando boa fatia de mercado.
Diferentemente da Europa que já faz parte natural do hábito de consumo.
E, falar de Europa e vinhos rosés imediatamente nos remete ao “berço dos rosés”, a Provence, na França.
Em que pese ser a região da Provence a que mais ganhou fama na produção de rosés, não podemos esquecer de falar do verdadeiro “Berço”, que a Cidade de Tavel.
“O Tavel é uma prestigiada denominação de origem (AOC) do Vale do Rhône, na França, conhecida por produzir exclusivamente vinhos rosados de alta qualidade, mais encorpados e estruturados do que os delicados rosés da Provence. A origem dos rosés, por sua vez, remonta à antiguidade.”
Tavel e a Origem dos Rosés
- Tavel: Considerado o “rei dos rosés” e o primeiro rosé AOC da França (reconhecido em 1936), o Tavel destaca-se pela sua cor mais profunda (salmão a rubi), maior estrutura, corpo e potencial de envelhecimento. Seu processo de produção envolve uma maceração pelicular mais longa (de 12 a 72 horas) em comparação com outros rosés, extraindo mais cor, sabor, textura e taninos. Isso resulta em vinhos potentes, secos, com notas de frutas vermelhas maduras, especiarias e, por vezes, toques minerais e de garrigue (vegetação local). Foram os vinhos favoritos de figuras históricas como o rei francês Luís XIV e os papas de Avignon.
- Origem dos Rosés: A história do vinho rosé é antiga, remontando a milhares de anos, com as primeiras práticas vinícolas dos gregos e fenícios no Mediterrâneo, por volta de 600 a.C.. Os vinhos produzidos nessa época eram naturalmente mais claros, devido a técnicas de vinificação primitivas que envolviam pouco contato com as cascas ou a diluição dos vinhos tintos com água. Estes vinhos rosados eram populares e considerados refinados na antiguidade, muito antes dos métodos modernos de produção de tinto e branco. A região de Provence, em particular, tornou-se um centro de produção desse estilo de vinho, status que mantém até hoje.

Fonte: site Vin-tavel
Em 1902, foi formado o “Syndicat des Propriétaires Viticulteurs de Tavel” (Sindicato dos Proprietários de Vinhedos de Tavel), que em 1926 estabeleceu limites para delimitar as terras destinadas à produção do vinho Tavel, concentrando-as essencialmente na comuna. Os solos de Tavel mostraram-se particularmente propícios para a produção de um vinho rosé de qualidade. Foi graças à forte vontade e obstinação dos viticultores e do Barão Le Roy que a AOC (Denominação de Origem Controlada) “Tavel” foi criada em 1936, tornando-se assim o primeiro vinho rosé AOC da França.
Algumas regiões importantes na produção de rosés:
| País | Região Principal | Características do Rosé | Principais Uvas |
| França | Provence (Côtes de Provence, Bandol etc.) | Seco, muito pálido (salmão/pêssego), fresco, delicado, com notas cítricas e minerais. | Grenache, Cinsault, Syrah, Mourvèdre |
| França | Tavel (Vale do Rhône) | Seco, encorpado, mais escuro, robusto, com notas de frutas vermelhas e especiarias. | Grenache, Cinsault, Syrah, Clairette |
| França | Languedoc-Roussillon | Variado, de pálido e leve a mais frutado, frequentemente com boa relação custo-benefício. | Grenache, Cinsault, Syrah, Carignan |
| Espanha | Navarra | Rosés vibrantes, frutados, com boa acidez e cor intensa (fúcsia ou cereja). | Garnacha (Grenache), Tempranillo |
| Espanha | Rioja | Seco, muitas vezes com notas de frutas vermelhas e algum envelhecimento em carvalho. | Tempranillo, Garnacha |
| Portugal | Vinho Verde | Leve, fresco, jovem, com leve efervescência e baixo teor alcoólico. | Vinhão, Espadeiro, Touriga Nacional |
| Portugal | Douro | Encorpado, frutado, com estrutura, por vezes fermentado em barrica. | Touriga Nacional, Touriga Francesa |
| Itália | Abruzzo (Cerasuolo d’Abruzzo) | Cor cereja intensa, encorpado, com notas de frutas vermelhas maduras e especiarias. | Montepulciano d’Abruzzo |
| Itália | Lombardia/Vêneto (Chiaretto) | Leve, fresco e delicado, com notas florais e minerais, produzido próximo ao Lago de Garda. | Rondinella, Corvina, Molinara |
COMO É O PROCESSO DE PRODUÇÃO?
Fato curioso é que, apesar da coloração, os rosés são feitos basicamente a partir de uvas tintas. À exceção fica por conta de alguns rótulos elaborados a partir de cortes de uvas tintas e brancas, método muito utilizado para espumantes, que na maioria, usam Pinot Noir e Chardonnay na composição. Entenda:
O vinho rosé é produzido a partir de uvas tintas, mas a sua cor característica deve-se ao curto período de contato do suco (mosto) com as cascas. O processo de vinificação continua como se fosse um vinho branco, após a remoção das cascas.
O inverso ocorre com vinhos laranjas. Produzidos a partir de uvas brancas, seguindo o mesmo processo de produzir tintos.
Existem três métodos principais para a elaboração do vinho rosé:
1. Maceração Curta
Este é o método mais comum e considerado o mais nobre para a produção de rosés de alta qualidade.
- As uvas tintas são colhidas, desengaçadas e levemente esmagadas.
- O mosto (suco) permanece em contato com as cascas por um período muito curto, geralmente de 2 a 20 horas, ou no máximo até 48 horas.
- Quanto mais tempo o contato, mais intensa será a cor do vinho final. Quando a tonalidade desejada é alcançada, as cascas são separadas do suco, e a fermentação alcoólica prossegue sem elas, em tanques separados. O produtor quem vai definir o perfil desejado, associado aos tipos uvas escolhidas.
2. Método de Sangria (Saignée)
Neste método, a produção do rosé é, na verdade, um subproduto da produção de vinho tinto.
- O processo inicia-se como na produção de um vinho tinto, com o mosto e as cascas fermentando juntos.
- Logo no início da fermentação, uma parte do suco (cerca de 10%) é “sangrada” ou retirada do tanque original para outro recipiente.
- Esse líquido retirado, já com uma leve coloração rosada, é fermentado separadamente para produzir o vinho rosé. O líquido restante no primeiro tanque continua o processo para produzir um vinho tinto mais concentrado.
3. Método de Corte (ou Mistura)
Este método consiste em misturar vinhos tintos e brancos já prontos para criar um vinho rosé.
- É o método menos comum para vinhos rosés tranquilos (não espumantes) devido a restrições em muitas regiões vinícolas.
- Na França, por exemplo, essa prática é geralmente permitida apenas para a produção de Champagnes e outros vinhos espumantes rosés.
4. ”Descoloração: Outro método de produção de vinho rosé é “descolorir” um vinho tinto usando carvão absorvente, como carvão ativado. Embora possa ser usado para descolorir um vinho, raramente é usado em rosés de qualidade, pois pode retirar outros elementos dos vinhos.” Fonte método 4: site vinocult
Independentemente do método, o resultado é um vinho fresco, leve e versátil, ideal para ser servido gelado, entre 7°C e 10°C.
Breve Nota Histórica: Muitos dos primeiros vinhos tintos tinham uma cor mais próxima do rosé moderno, já que muitas das primeiras técnicas de vinificação envolviam a prensagem logo após a colheita, com pouco tempo de maceração, ou seja, pouco tempo de contato com as cascas, gerando vinhos com pouca pigmentação. Os antigos enólogos romanos e gregos preferiam vinhos com pouca cor, sem muito contato com as cascas. Tal “preferência” continuou na Idade Média, e até pouco depois quando os clarets de Bordeaux ganharam o mundo, em especial a Inglaterra (os vin d’une nuit ou “vinhos de uma noite”), época que vinhos tintos (com mais contato com as cascas) eram considerados de menor qualidade.
Principais Uvas: Carignan; Cinsault; Grenache; Malbec; Merlot; Mourvèdre; Pinot Noir; Sangiovese; Syrah; Tempranillo, Cabernet (Sauvignon e Franc); Touriga Nacional; Sangiovese, Zinfandel etc.
As cores: a paleta de cores dos vinhos rosés depende da variedade de uva e do método de elaboração usado (inclusive o eventual tempo de contato/maceração do suco com as cascas). Variam da “casca de cebola” ou rosa pálido, até o rosa mais forte ou púrpura. O Conseil Interprofessionnel des Vins de Provence lista as seguintes cores: melão Cantaloupe, pêssego, groselha, toranja/pomelo, manga e tangerina.”
Fonte: site Vinocult
ALGUNS PRODUTORES DE DESTAQUE. TAVEL X PROVENCE:
| Região | Produtor/Vinho | Prêmios de Destaque e Reconhecimento | Notas de Críticos (Exemplo de pontuação média/alta) |
| Provence | Château Cavalier Marafiance | Vencedor de “Best in Show” no DWWA 2025, o maior concurso do mundo. | 97/100 (Decanter 2025) |
| Provence | Château d’Esclans Whispering Angel | Considerado uma referência global para o rosé de Provence, sempre muito aclamado em revistas especializadas. | 90-92/100 (Wine Spectator/Enthusiast, safras recentes) |
| Tavel | Château d’Aqueria Tavel Rosé | Um produtor icônico de Tavel, consistentemente bem avaliado e adquirido recentemente pela prestigiada Guigal. | 90/100 (Críticos diversos) |
| Provence | Château Miraval Rosé | Popularidade global e reconhecimento de qualidade consistente por críticos, ganhando múltiplos prêmios. | 90-91/100 (Wine Spectator, safras recentes) |
| Tavel | Domaine de la Mordorée Tavel Cuvée de la Reine des Bois | Um dos Tavels mais aclamados, conhecido pela complexidade e potencial de envelhecimento, frequentemente medalhado. | 91-93/100 (Robert Parker, safras excelentes) |
| Provence | Domaines Ott Château de Selle | Um “cru classé” lendário, sinônimo de luxo e qualidade superior em Provence, com inúmeros reconhecimentos. | 93/100 (Wine Spectator, safras recentes) |
| Provence | Château de Berne Grande Récolte | Ganhador de medalha de ouro no Provence Wine Competition e altas notas em publicações. | 92/100 (Wine Enthusiast) |
| Tavel | E. Guigal Tavel Rosé | Embora a propriedade seja recente, a reputação da Guigal garante um rosé de Tavel de alta qualidade e premiado. | 90/100 (Críticos diversos) |
| Provence | Minuty 281 | Rosé de prestígio que recebe consistentemente altas pontuações e elogios por sua elegância e intensidade. | 92/100 (Decanter/IWSC, safras recentes) |
| Provence | Ultimate Provence UP Rosé | Recebeu pontuações excelentes em painéis de degustação e guias de vinho globais. | 94/100 (The Tasting Panel) |
ROSÉS BRASILEIROS:
A REVOLUÇÃO TRANQUILA EM TONS DE ROSA
Longe de serem apenas vinhos de verão, os rosés tranquilos do Brasil conquistaram paladares exigentes e premiações internacionais.
Produzidos com uvas tintas de qualidade e técnicas precisas, eles revelam um potencial surpreendente em terroirs nacionais.
CONHEÇAM ALGUNS PRODUTORES NACIONAIS QUE GANHARAM DESTAQUES:
| Produtor/Vinho | Região Principal de Produção | Prêmios de Destaque e Reconhecimento | Notas/Pontuações (Exemplo) |
| Vinícola Thera Rosé | Serra Catarinense (SC) | Eleito “Melhor Vinho Rosé do Brasil” pelo Guia Adega em múltiplas edições. | 93/100 (Guia Adega 2025) |
| Essenza Shiraz Rosé | Serra da Mantiqueira (SP/MG) | Eleito o 1º Melhor Rosé do Brasil no Wines of Brazil Awards, premiado internacionalmente. | 93/100 (WBA); 91/100 Prata (DWWA 2024) |
| Villa Francioni Rosé | São Joaquim (SC) | Frequentemente no topo dos rankings nacionais, como o “Top 10 Rosé Wines of Brazil Awards” de 2019. | Alta pontuação em guias nacionais |
| Abreu Garcia Malbec Rosé | Campo Belo do Sul (SC) | Vinho premiado em concursos nacionais, conhecido pela expressão do terroir de altitude. | Destaque em concursos brasileiros |
| Vinhetica Terroir de Rosé | Campanha Gaúcha (RS) | Reconhecido em premiações nacionais, como o Top 10 Rosé Wines of Brazil. | Destaque em concursos brasileiros |
| Quinta da Neve Rosa da Neve | São Joaquim (SC) | Um dos rosés pioneiros da altitude catarinense, com presença constante em listas de qualidade. | Reconhecimento nacional |
| Cooperativa Garibaldi Prosecco Rosé | Serra Gaúcha (RS) | Embora seja um espumante, recebeu um importante prêmio na Europa em 2020. | Medalha em concurso europeu |
| San Severo Rosé Seco | Serra Gaúcha (RS) | Conquistou medalha de ouro em concursos, mostrando a força dos rosés secos da região. | Medalha de ouro |
| Aurora Moscatel Rosé | Serra Gaúcha (RS) | Premiado com “Grande Ouro” em concursos internacionais como o Bacchus na Espanha. | Grande Ouro (Bacchus) |
| Ponto Nero Rosé | Serra Gaúcha (RS) | Parte do grupo Famiglia Valduga, com reconhecimento pela qualidade de seus espumantes rosés. | Reconhecimento em Vinalies Internationales |
Nota: A maioria dos vinhos brasileiros de maior prestígio no cenário internacional são, na verdade, espumantes (como Cave Geisse e Aurora Moscatel Rosé), que frequentemente ganham as maiores medalhas e pontuações globais.
MERCADO EM CRESCIMENTO
O consumo de vinho rosé no Brasil tem apresentado um crescimento notável nos últimos anos, impulsionado por uma mudança nas preferências do consumidor e pela popularização da categoria. Dados reais de mercado confirmam essa tendência, embora as fontes foquem principalmente no crescimento percentual e na participação de mercado, em vez de volumes absolutos específicos para rótulos nacionais versus importados em um único quadro.
Veja em números:
Crescimento do Consumo de Vinho Rosé no Brasil (Dados Verificáveis)
| Período Analisado | Métrica de Crescimento do Rosé | Contexto do Mercado | Fonte dos Dados e Referência |
| 2010 a 2020 | A categoria de rosés cresceu 86% nos últimos três anos do período. | Participação de mercado de rosés dobrou para 9% do mercado total de vinhos no Brasil. | Exame, Guia GPHR, fontes de mercado e consultorias especializadas. |
| Ano de 2020 | Vendas de rosé tiveram alta de 35% em volume em relação ao ano anterior. | O mercado geral de vinhos no Brasil cresceu 36% em 2020 (ano da pandemia). | HubPME, Guia GPHR. |
| Ano de 2021 | Rosés continuaram crescendo 35%. | Crescimento geral do mercado de vinhos foi mais moderado (+7%). | LinkedIn, fontes do setor. |
| Tendência Geral | Aumento constante na preferência dos brasileiros. | O consumo per capita de vinho no Brasil subiu de 1,8 litro (2019) para cerca de 2,7 litros (2022-2024), mostrando um mercado em expansão para todas as categorias, incluindo os nacionais rosés. | Globo Rural, CNN Brasil. |
Fontes Primárias e Secundárias Utilizadas:
- Consultorias de Mercado (Wine Intelligence, bw166): Frequentemente citadas por publicações de negócios (Exame, GZH), fornecem a base para os dados de crescimento percentual do mercado de rosés.
- Associação Brasileira de Sommeliers (ABS) e publicações do setor: Divulgam dados sobre o aumento do consumo per capita de vinho no Brasil.
- Reportagens em Mídia Especializada: Veículos como CNN Brasil, Globo Rural e Guia GPHR publicam regularmente relatórios baseados em dados de importação, vendas e pesquisas de consumo (HubPME, CNN Brasil).
CONCLUSÃO
Cada mergulho no mundo da taça vai despertando nossa curiosidade. Conhecemos regiões, história, produtores e produtos.
A época convida a experimentar um rosé, e a paleta elegante, mais ou menos intensa, nos dá uma direção de maior ou menor estrutura, assim como, a região e tipos das cepas utilizadas.
Sem dúvidas, o rosé é uma opção a incluir em nossa gama de experimentações.
Viva, um brinde … e até a próxima semana!
Alexandre Ferreira
Editor da Coluna de vinhos e gastronomia “Borbulhas Quentes & Frescas” do portal Economia & Negócios; Founder na Farinatta Bistrô e Farinatta Wine Store; curador de vinhos.
| Para Jantares no Farinatta: reservas@farinatta.com.br redes sociais: instagram: @farinattabistroearte YouTube: Farinatta loja de vinhos: Instagram: @farinattagrapeswinestore |


“Aprecie com moderação.” “Proibida venda e consumo a menores de 18 anos.” “Não dirija se beber.”



