Subtítulo: Golpe cresce com o uso de deepfakes, falsas promessas de cura e anúncios disfarçados; Anvisa, plataformas e Conar têm papéis distintos, mas o consumidor precisa redobrar a atenção.
A proliferação de vídeos falsos nas redes sociais — muitos deles usando deepfakes, apresentadores falsos e depoimentos fabricados — impulsiona a venda de suplementos supostamente “milagrosos”, que prometem emagrecimento instantâneo, cura de doenças crônicas, rejuvenescimento e até aumento de performance sexual. O problema, além de enganoso, representa risco real à saúde e configura crime contra as relações de consumo.
Nos últimos meses, especialistas têm alertado que esses vídeos, produzidos com alta tecnologia e impulsionados por publicidade oculta, exploram a confiança do público, especialmente idosos e consumidores vulneráveis.
O que há de irregular nesses produtos?
Grande parte dos suplementos vendidos por meio desses vídeos apresenta irregularidades graves:
1. Não possuem registro ou autorização da Anvisa
Suplementos só podem ser comercializados no Brasil se regularizados, com composição aprovada e dentro das normas de segurança. Quando não têm registro, são considerados produtos clandestinos.
2. Fórmulas desconhecidas e ingredientes proibidos
Muitos contêm substâncias não declaradas ou proibidas, como estimulantes, hormônios e compostos sem estudo clínico. Já houve casos de produtos com:
- sibutramina disfarçada
- anfetaminas
- hormônios de crescimento
- substâncias tóxicas de procedência desconhecida
3. Promessas terapêuticas ilegais
A legislação brasileira proíbe que suplementos prometam curar doenças, substituir tratamentos médicos ou apresentar efeitos “milagrosos”.
4. Uso indevido de imagem de médicos, celebridades e órgãos oficiais
Deepfakes frequentemente colocam palavras na boca de profissionais que jamais recomendaram tais produtos.
O papel da Anvisa
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária não fiscaliza diretamente as redes sociais, mas tem funções essenciais nesse cenário:
Regulação dos produtos de saúde
A Anvisa define o que pode ou não ser comercializado, fiscaliza laboratórios, exige estudos de composição e determina padrões de segurança.
Ação contra produtos irregulares
Quando identifica ou recebe denúncias, a agência pode:
- emitir alertas sanitários
- determinar recolhimento nacional
- acionar a Polícia Federal, Ministério Público e Vigilância Sanitária dos estados
- bloquear importações
- suspender registro de empresas envolvidas
Orientação ao consumidor
A Anvisa mantém canal aberto para denúncias e divulga listas de suplementos proibidos.
E quem deve fiscalizar os anúncios? O papel do Conar
O Conar — Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária — atua especificamente sobre a publicidade, incluindo:
- anúncios enganosos
- propaganda abusiva
- falta de transparência (ads disfarçados)
- uso indevido da imagem de pessoas públicas
Contudo, o Conar não pune empresas, apenas determina remoção ou alteração de peças publicitárias. Além disso, a adesão é voluntária e muitas empresas clandestinas simplesmente ignoram suas decisões.
Papel das plataformas digitais
Redes como Instagram, Facebook, TikTok e YouTube são responsáveis por remover conteúdo que viole as regras de saúde e segurança do consumidor. Ainda assim:
- golpes reaparecem com novos perfis;
- algoritmos podem impulsionar conteúdo viral sem verificar autenticidade;
- anúncios pagos compram alcance antes de serem bloqueados.
Como o consumidor pode se proteger?
1. Desconfie de promessas “milagrosas”
Se promete cura rápida, resultado imediato ou efeitos extraordinários, é fraude.
2. Pesquise no site da Anvisa
Todo suplemento regularizado tem número de registro.
Não encontrou? Não compre.
3. Verifique se o site ou empresa existe de verdade
A maioria dos golpistas usa:
- páginas recém-criadas;
- CNPJs falsos;
- depoimentos fictícios;
- fotos de banco de imagem.
4. Não compre produtos anunciados por “médicos” em vídeos suspeitos
Muitos dos depoimentos são deepfakes criados com IA.
5. Use sempre canais oficiais e farmácias licenciadas
Suplementos autorizados são vendidos em estabelecimentos regulares — não em links suspeitos ou páginas “sem endereço”.
6. Denuncie
- À Anvisa
- Ao Conar (se for anúncio publicitário)
- Às plataformas
- Ao Procon da sua cidade
Por que essas vendas são consideradas criminosas?
Porque atingem diretamente o direito à saúde e à informação, previstos no Código de Defesa do Consumidor. Entre os principais crimes:
- propaganda enganosa (Art. 67)
- crime contra a saúde pública (Art. 273 do Código Penal)
- falsificação de medicamentos e suplementos
- indução ao erro com impacto clínico
Os riscos vão desde efeitos colaterais severos até interações perigosas com medicamentos, podendo causar internações e até óbitos.
A explosão de vídeos falsos nas redes sociais representa uma ameaça crescente ao consumidor brasileiro. A atuação integrada de Anvisa, Conar, plataformas digitais e órgãos de defesa do consumidor é fundamental — mas, até lá, a melhor defesa é a informação.
O Portal Economia & Negócios reforça: suplementos não são ferramentas de cura milagrosa, e anúncios que prometem o impossível quase sempre escondem riscos graves.

